Perigo na floresta
Padre italiano relata para Vida Vã as denúncias de utilização em larga escala do 'agente laranja’ na região amazônica que será alagada pela usina de Belo Monte
O ‘agente laranja’, um dos mais violentos agentes contaminantes da natureza fabricados pela indústria química, proibido de ser utilizado no mundo há mais de 30 anos, está sendo utilizado em larga escala no desmatamento da Amazônia, inclusive em extensa área da “Terra do Meio”, no Pará, região que será alagada pela Usina de Belo Monte.
A contaminação por dioxinas deixadas na natureza pelo ‘agente laranja’ são irreversíveis. O produto foi utilizado pelos Estados Unidos no Vietnã, na década de 1960, e as dioxinas permanecem até hoje no meio ambiente, em pessoas e animais. O câncer provocado por dioxinas atinge o DNA e é transmitido geneticamente.
A denúncia da utilização do ‘agente laranja’ na Terra do Meio foi formalizada, em julho passado, em fóruns nacionais e internacionais pela Corte Internacional do Meio-Ambiente, órgão ligado à Igreja Católica de Roma, na Itália, e com assento na ONU (Organização das Nações Unidas). As provas de sua utilização na floresta foram coletadas por um delegado internacional da Fundação, o padre Angelo Pansa, de origem italiana e com mais de 30 anos de trabalho junto à população indígena e moradores das regiões ribeirinhas do Pará.
A denúncia está formalizada também no Ministério Público Federal e já é investigada pelo Ministério Público Estadual do Ceará, onde uma fábrica de agrotóxicos teria produzido ilegalmente o ‘agente laranja’ para vender a grandes proprietários de terra da Amazônia. Coletas de material feitas na floresta pelo padre estão nas mãos de pesquisadores brasileiros, entre eles residentes em Barão Geraldo, e também italianos e alemães.
Primeiros indícios – Os primeiros indícios da utilização do ‘agente laranja’ na região foram coletados pelo padre Angelo em 2007. “Antes, ouvíamos falar de alguma substância utilizada como desfolhante por grandes fazendeiros em desmatamentos, e que provocava grandes estragos onde era lançada”, contou padre Angelo para Vida Vã.
Em julho de 2007, depois de receber denúncias de moradores, padre Angelo decidiu ir a um campo de pouso localizado às margens da Transiriri, uma estrada clandestina que liga o Rio Xingu ao Rio Iriri, no município de São Felix do Xingu, no Pará. Um avião, sem prefixo, pulverizava a mata há dias com um produto que desfolhava árvores e causava devastação enorme na região. Relatos semelhantes já haviam sido encaminhados a ele, em ocasiões anteriores e diferentes locais, por integrantes da prelazia de Tucumã, onde ele atuava como padre responsável.
“Fomos expulsos a tiros do local quando chegamos. Quando as pulverizações acabaram, voltamos lá, mas não conseguimos recolher nenhum material. Tudo havia sido queimado”, relata.
Na véspera do Natal daquele mesmo ano, agricultores o procuraram para denunciar que os mesmos produtos estavam sendo utilizados em outro local, dentro da mata. “Fomos de noite. Deixamos a caminhonete escondida e caminhamos mais de três horas pela mata, para não sermos vistos. No local, havia um grande número de embalagens, que descobriríamos depois ser do agrotóxico Nufarn 2,4-D. Mas havia vários sacos plásticos, sem identificação, que continham restos de um produto amarelo. A maioria dos sacos havia sido queimada, mas conseguimos pegar alguns deles. O produto amarelo, segundo os moradores, era misturado nos grandes frascos de Nufarn 2,4-D, antes da pulverização”.
Hospitalizado – O ‘agente laranja’, com a fórmula química 2,4,5-TDD, pode ser feito a partir de uma composição entre o 2,4-D e outro produto, o 2,5-T. “A suspeita era de que o as embalagens amarelas continham o 2,5-T”, diz.
Com os produtos na mão, ele foi direto para Belém, capital do Estado, mas chegou lá gravemente enfermo. “Embora eu tivesse usado luvas, aquelas longas horas de viagem com o produto no carro me contaminaram gravemente”.
Ele ficou hospitalizado, em coma, durante dias. Quando saiu, ainda enfermo, encaminhou o material ao procurador da República no Estado do Pará, Ubiratan Cazetta. O material foi encaminhado ao Instituto Evandro Chagas, que alegou não possuir habilitação técnica para fazer a análise e o remeteu ao Laboratório Analytical Solutions, com sede no Rio de Janeiro.
“O exame pericial não esclareceu se o material continha o 2,5-T. Eram necessários outros exames mais elaborados. Mas, por causa da contaminação, fiquei muito doente e tive que voltar para a Itália para me tratar”.
Denúncias graves – No final de 2010, padre Angelo voltou ao Brasil e descobriu que o processo havia sido, desde então, engavetado. Mas novas denúncias feitas por moradores da região eram ainda mais graves. O Nufarn 2,4-D, com o tal pó amarelo, continuava sendo utilizado em larga escala e agora já sem controle nenhum.
Em diligências, ele constatou que embalagens abandonadas eram amplamente utilizadas pelas populações ribeirinhas para armazenar água. Por lei, as embalagens devem ser devolvidas ao fabricante, que tem a obrigação de fazer o descarte adequado.
O padre descobriu ainda que no ano anterior, 2009, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) havia apreendido uma carga clandestina de 2,3 milhões de litros do agrotóxico Nufarn 2,4-D adulterado por uma substância desconhecida. A operação, realizada com apoio da Polícia Federal, ocorrera na fábrica da Nufarm Indústria Química e Farmacêutica, em Maracana, no Ceará, e era destinada a fazendeiros da Amazônia. “Até hoje não se sabe qual o produto colocado nesta carga e qual a adulteração provocada nela”, conta.
Escândalo – Com o escândalo das dioxinas na Alemanha, no começo de 2011, quando a contaminação de milhões de ovos provocou grande prejuízo a agricultores, as denúncias de padre Angelo ganharam impulso adicional e foram parar nas páginas da poderosa revista alemã Der Spiegel.
Em julho passado, com base em todo o material levantado desde 2007, padre Angelo, na condição de delegado da Corte Internacional do Meio Ambiente, impetrou em várias instâncias nacionais e internacionais um pedido formal de análise de terrenos, águas, produtos vegetais e animais provindos da área contaminada e também do sangue e urina de pessoas eventualmente atingidas pelos venenos, para detectar a presença de dioxinas.
A solicitação está protocolada junto aos governos do Brasil e da Itália. “Pedimos que as amostras sejam colhidas e encaminhadas a laboratórios internacionais, como Mari Negri, na Itália, que atuou quando ocorreu o desastre das dioxinas em Seveso e Milão”.
Padre Angelo tem certeza de que as análises comprovarão as denúncias. “É fundamental que tudo isso chegue ao conhecimento público, pois os interesses envolvidos são muito grandes e temo o abafamento do caso”.
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