Espetáculo encenado só por meninos dançarinos será apresentado no SESC Campinas e no Centro de Convivência
Véronique Hourcade
O poema de Castro Alves, cantado na travessia de mar entre o continente africano e a colônia portuguesa nas Américas, foi transformado em espetáculo de dança e a montagem tem apresentações agendadas em Campinas a partir de setembro. Foram dois anos de intenso trabalho para a montagem de O Navio Negreiro, que começou com a leitura e estudo do poema e dessa tragédia que foi a escravidão, envolvendo, inclusive, sessões de filmes que tratam do tema. A preparação também exigiu uma imersão na cultura africana, com workshops de capoeira, de cantos e de danças e o resultado pode ser conferido no SESC Campinas, de 8 a 11 de setembro, e no Centro de Convivência Cultural de Campinas, de 1 a 3 de novembro.
Com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), o projeto resulta em um espetáculo de dança contemporânea especialmente idealizado para o grupo ‘Os Meninos do Barão’, formado por jovens bailarinos em formação, atendidos pela Associação dos Benfeitores e Amigos de Meninos Bailarinos Atores (Abamba).
Composto apenas por meninos, o grupo fez o primeiro ensaio aberto de O Navio Negreiro em julho do ano passado e desde então algumas apresentações foram realizadas, entre elas em Ilhabela e Barão Geraldo (no Casarão), no ano passado, e em Rio Claro e Serra Negra neste ano. “Finalmente faremos a estreia do espetáculo em Campinas”, comemora o diretor da Abamba e do espetáculo, Beto Regina, lembrando que se trata da sétima produção da montagem.
A abamba – A Associação, que completou 14 anos neste mês de agosto, se dedica a formação profissionalizante de dança, atendendo a meninos com idades a partir de 12 anos, oriundos de famílias de baixa renda.
O curso tem duração de seis anos, com aulas diárias, abrangendo dança, teatro, música, artes visuais e circenses. Conforme explica o diretor, a proposta vai além da formação profissional, já que os meninos que participam da Abamba recebem reforço escolar e acompanhamento psicológico, além de apoio com cesta básica, refeições no local e vale transporte.
“Temos a preocupação em oferecer aos meninos a formação da cidadania. Queremos ensiná-los a protagonizar a própria vida”, afirma Beto Regina, ressaltando que os futuros bailarinos também recebem noções de cuidados pessoais e dos afazeres domésticos, da responsabilidade de pagar contas e de planejar a própria carreira.
Seleção – No entanto, para fazer parte do grupo é necessário, além da vontade de seguir a carreira de bailarino, passar por um processo de seleção que começa com audição e depois três meses de experiência.
Conforme Beto Regina, costumam ser feitas audições duas vezes por ano e as inscrições chegam de várias partes de Campinas e de cidades da região.
Os interessados devem entrar em contato pelo telefone 3289-0651. Passada a fase da experiência, os garotos começam a fazer parte do projeto de formação e participam de todas as atividades. No término do curso, os meninos formados são encaminhados para o processo de obtenção do registro profissional.
“Mandamos os meninos para São Paulo, pagamos a inscrição e montamos a coreografia”, detalha o diretor. “Depois encaminhamos para audições em companhias profissionais”, acrescenta. Ele conta que há bailarinos, formados pelo projeto, integrando algumas companhias do país, como em Manaus, Taubaté e Campinas.
A Formação do Bailarino
A formação do bailarino, conforme explica Beto Regina, é totalmente diferente da formação da bailarina, pois os movimentos são muito distintos. “A mulher é graciosa. O homem salta mais, é viril e carrega a mulher”, exemplifica. O diretor afirma que a profissão de bailarino é bastante promissora, uma vez que há escassez de bailarinos. “As companhias pagam muito bem”.
O Navio Negreiro
De 8 a 11 de setembro, no SESC Campinas
De 1 a 3 de novembro, no Centro de Convivência Cultural de Campinas
Concepção / direção / coreografia - Beto Regina
Trilha sonora - Eduardo Agni
Cenografia - Zay Pereira
Iluminação - Felipe Chepkassoff
Adereços (bonecos) - Jésus Seda
Coreógrafos convidados - Felipe Chepkassoff; Leonardo Steinberg; Paula Salles; Elizandro
Carneiro; Wolnei Macena
Elenco - Beto Regina (como Castro Alves); Gabriel Donizete; Renan Vilela; Luiz Claudio Ribeiro; Marcelo Leite; Cristiano Lira; João Vitor; Luiz Ricardo; Maycon Cruz e Wesley Gonçalves.
Trabalho voluntário
Abamba é uma ONG, os professores são voluntários e a manutenção das atividades se dá por meio de doações, feitas por sócios ou de forma avulsa, havendo a possibilidade, também, de destinação de parte do Imposto de Renda.
As doações avulsas podem ser materiais, como itens de higiene pessoal e da cesta básica. “Precisamos de tudo por aqui. Meias são muito úteis para nós”, exemplifica Beto Regina, já que são bastante utilizadas nos ensaios.
A sede da associação está localizada na rua Rodrigo Ribeiro de Melo, 80, no bairro Real Parque.
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