quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Edição 1 - Buscador

E assim falava Baranasukas
Organização Mundial da Saúde alerta, pela primeira vez, sobre os graves riscos para a saúde que podem ser causados pelo uso do telefone celular


 Paulo San Martin

O professor Victor Baranauskas, da Faculdade de Engenharia Elétrica, Computação, Semicondutores e Fotônica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) garante: as grandes empresas de telefonia já desenvolveram tecnologias para reduzir o impacto das ondas emitidas pelos celulares no cérebro humano, mas só vão colocá-las em prática se forem pressionadas pelos consumidores.

Por isso, ele defende uma forte mobilização dos órgãos públicos de saúde e, principalmente, dos consumidores, para exigir que estas tecnologias sejam disponibilizadas nos telefones celulares.

“Como não há pressão ou demanda por esta tecnologia, porque os consumidores desconhecem os riscos, as empresas não investem nisso. Com certeza, os consumidores seriam mais exigentes com os fabricantes se tivessem consciência da gravidade do uso do aparelho”, sentencia.

Neste sentido, o professor chama à responsabilidade não só os órgãos de saúde, mas autoridades e veículos de comunicação, por nunca terem aprofundado e questionado o alcance dos riscos dos celulares para a saúde humana.

Durante décadas, praticamente desde o início da expansão da telefonia celular no Brasil, nos anos 80, o professor Baranauskas moveu uma verdadeira cruzada para alertar a po­pulação sobre este perigo, inclusive com a publicação, em 2001, do livro ‘O Celular e seus Riscos’. Na maior parte das vezes, ele clamou no deserto.

O alerta da OMS - Agora, com o recente alerta da OMS (Organização Mundial da Saúde), o professor acredita que é hora de voltar à carga. Para ele, os órgãos de saúde pública, no Brasil e no mundo, não podem mais se abster diante da colossal expansão da telefonia móvel. Em maio deste ano, a OMS, pela primeira vez – depois de ter recebido durante anos pressões de pesquisadores do mundo inteiro – colocou os telefones celulares como “possivelmente cancerígenos”, na mesma categoria do chumbo, escapamento de motor de carro e clorofórmio.

Em comunicados anteriores, a pró­pria OMS havia afirmado que a radiação de celulares “não poderia ser relacionada a nenhum efeito nocivo à saúde”. O novo informe foi publicado com base em uma ampla revisão, feita por 31 cientistas de 14 países, dos estudos realizados no mundo sobre a segurança de telefones celulares.

A equipe diz ter encontrado provas suficientes para classificar a exposição pessoal à radiação de celulares como “possivelmente cancerígena” para os seres humanos.

Como acontece – Para Baranauskas, nada disso é novidade. Desde o início, quando era óbvia a falta de dados estatísticos, ele partiu de outras evidências científicas para alertar sobre o risco da radiação dos celulares.

“O corpo humano é um mecanismo biológico extremamente complexo e, do ponto de vista elétrico, apresenta estruturas de alta condutividade como as redes de neurônios, os fluidos sanguíneos e o líquor cerebral. Por andarmos na posição vertical, funcionamos também como ótimas antenas receptoras para absorção da radiação eletromagnética”, diz ele. “A telefonia celular emite radiação com comprimentos de onda entre 33,7 cm e 36,3 cm. Estes valores coincidem com a ressonância, isto é, a maior absorção de radiação na caixa craniana de pessoas adultas, ou na radiação de corpo inteiro em bebês”.

Por isso, é no cérebro dos adultos e em todo o corpo das crianças que os efeitos dos celulares são mais devastadores.

As microondas emitidas pelo ce­­­lular, ao serem absorvidas pelo organismo humano, geram aquecimento. “Muitas vezes, um indivíduo exposto à radiação poderá sofrer até queimaduras internas, sem que nenhuma transformação visível possa ser vista na pele”, diz. É como o frango cozido no forno de microondas. Ele fica completamente cozido por dentro, enquanto sua pele continua crua. Isso acontece porque a pele tem pouca água e, portanto, uma capacidade menor de absorção da energia. O mesmo acontece no corpo humano.

Esta capacidade de absorção e dispersão da energia também pode mudar de indivíduo para indivíduo, dependendo das dimensões do crânio e das condições fisiológicas de cada um. “Microscopicamente, sabe-se lá quais e quantas estruturas biológicas são danificadas ou não durante este processo”, adverte.

Risco de câncer – O professor lembra que a medicina já tem claro que os fatores principais que podem desencadear o câncer são as altera­ções do DNA e a deficiência do sis­tema imunológico. “E, infelizmente, tanto um quanto o outro podem ser alterados pela radiação eletromagnética”, diz.

O uso de uma antena de um telefone celular próximo à cabeça, certamente trará maiores consequências da radiação sobre as regiões do cérebro e aos nervos da mão que segura o aparelho. “Por este motivo, o risco de câncer cerebral deve ser maior em usuários de telefone celular. A dificuldade de comprovação direta entre a radiação de microondas do celular e o câncer cerebral é a óbvia impossibilidade ética de se utilizar cobaias humanas. Mas, na prática, os usuários atuais infelizmente têm sido cobaias desta tecnologia”, denuncia.

No cérebro humano estão locali­zadas ainda as glândulas hipófise e a pineal, responsáveis pela secreção de dezenas de hormônios. Estes hormônios influenciam diretamente as funções celulares, assim como diversas funções fisiológicas e até psicológicas do ser humano.

“Portanto, através da disfunção dos mecanismos hormonais, a incidência de radiação no cérebro pode levar a diferentes mecanismos de ativação celular que podem originar células ‘diferentes’ (cancerígenas) em outras partes do corpo, além do próprio cérebro”.

Antenas – O efeito da radiação emitida pelas torres de microondas já estão largamente comprovados, afirma o professor.

Estudos mostram que as crianças que moram próximas de antenas com a radiação de frequência de 900MHz, têm prejudicadas as fases do sono responsáveis pela memória e aprendizado.

Ele diz que existem diversos estudos que comprovam o aumento de casos de leucemia em famílias que vivem em residências próximas às antenas.

“Finalmente, estudos epidemioló­gicos feitos em grupos de pessoas que são expostas à radiações eletromagnéticas devido a seu trabalho profissional, como operadores de radar de rádio, entre outros, demonstraram que há evidência epidemiológica de alte­ração das células brancas e vermelhas do sangue, incremento da leucemia, aumento das malignidades no sistema linfático, aumento da neoplasia do trato alimentar e aumento da incidência de câncer cerebral”.

Comportamento – De acordo com relatos científicos, fartamente cata­lo­gados por Baranauskas, os efeitos térmicos provocados pela radiação também contribuem para a alteração psicológica do indivíduo e provocam mudanças de comportamento e fadiga.

“Não há nenhuma dúvida na literatura científica de que a hiper­temia provocada pelas radiações eletromagnéticas é potencialmente prejudicial à saúde humana. Quando encostamos em um objeto quente nossa ação espontânea é nos afastarmos. Infelizmente não temos nenhum receptor no organismo para detectar a radiação eletromagnética”.

Para Baranauskas, além das doenças já conhecidas provocadas pela hi­pertemia, a radiação eletromagnética também provoca outras patologias. Um dos casos, já bastante estudado, é o da aceleração da catarata. “No caso da córnea e do cristalino, existem dois fatores que potencializam os danos da radiação: a necessidade de hidratação e a baixa irrigação sanguínea, além da extrema dificuldade de regeneração destes tecidos quando desidratados”, diz.

Com a eliminação da água, as fibras de colágeno que reveste os olhos enrolam-se entre si e passam ficam opacas, dando origem à catarata. A transparência delas é irrecuperável e elas precisam ser removidas por cirurgia. “A catarata pode ocorrer também devido a problemas vasculares, deficiência imunológica e envelhecimento. Pessoas que já tenham estas deficiências vão ter também os efeitos da radiação de microondas ampliados”, alerta.

Por isso, assim como ele já falava há muitos anos, Baranauskas diz que há motivos de sobra para que a saúde pública passe a colocar a telefonia celular como uma de suas prioridades.

(Colaborou Joice Costa)

Advertência vã
A expectativa de que o alerta lançado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), em maio, se transformaria em um divisor de águas para as normas de segurança dos celulares não se confirmou. Pelo menos até agora.

Em nenhum nível consultado por Vida Vã há indícios de que a decisão tenha provocado qualquer efeito prático.  Nem Ministério ou secreta­rias Estadual e municipais de saúde têm qualquer projeto de chamada às falas dos fabricantes e distribuidores de celulares.

Revendedores sequer são aconselhados a orientarem os consumidores sobre riscos e maneiras de o evitarem – ou minimizarem. E poucos consumidores, na ponta final, foram informados sobre os riscos.

Nas ruas, as pessoas demonstram não ter quase informação nenhuma sobre o assunto. Para o inspetor de qualidade Ivan do Santos, sua única preocupação é a tecnologia do apare­lho. “Eu não penso na radiação”, diz. Santos usa aparelho móvel há 7 anos.

A empresária Adriana Marquissolo diz que também prefere aparelho de boa tecnologia. “Eu não me preocupo com problemas de saúde quando vou escolher um telefone”. Ela faz uso da telefonia móvel também há 7 anos.

A estudante Laís Helena Pires Costa fala que usa celular há quase 4 anos e só pensa no que o aparelho pode oferecer de melhor. “Eu nem sabia de riscos a saúde”.

Precauções – “Esse tipo de informação deveria constar no manual do telefone, assim como fazem hoje com os maços de cigarros”, diz Baranauskas. Para ele, há precauções que podem ser tomadas por qualquer consumidor. “O ideal é evitar o contato físico com o aparelho. Recomendo que seja mais utilizado o viva voz e o fone de ouvido”, diz.

Em hipótese nenhuma os celulares devem ser utilizados por crianças, de preferência nem para jogar. Celular sob o travesseiro, então, nem pensar.

Outra dica de Baranauskas é regular o volume de forma que se possa usar o aparelho longe da cabeça. Espere a ligação ser completada para colocar o celular na orelha - o celular aumenta em até cinco vezes sua potência para localizar a antena mais próxima - e evite usar o celular em lugares fechados, como elevadores e carros.

Estudo realizado na Suécia mostrou que ratos expostos à radiação celular (em níveis considerados baixos pelas indústrias), diariamente por duas horas, durante 50 dias, apresentaram pontos escuros no cérebro, microhemorragias e perda de massa encefálica. O cérebro ficou poroso.


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