quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Edição 1 - Setembro de 2011

Pg 2 Editorial - Um jornal para Barão Geraldo

Pg 2 Crônica - As aves de Barão Geraldo

Pg 3 O jeito de ser Vila São João - um pedaço de Barão que circula pelo YouTube

Pg 4 Aldeia Brasil - Perigo na Floresta: padre italiano relata para Vida Vã as denúncias de utilização em larga escala do ´agente laranja´ na região amazônica que será alagada pela usina de Belo Monte

Pg 5 Opinião - Polêmica ou ignorância: discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa

Pg 6 Buscador - E assim falava Baranauskas: Organização Mundial da Saúde alerta, pela primeira vez, sobre os graves riscos para a saúde que podem ser causados pelo uso do telefone celular

Pg 8 Dança - "Os Meninos do Barão" apresenta O Navio Negreiro: espetáculo encenado só por meninos dançarinos será apresentado no SESC Campinas e no Centro de Convivência

Pg 10 Roteiro

Pg 11 Especial - Vai um pastel aí?

Pg 12 Nossa Aldeia - Banca de Avenida Paulista em plena Santa Isabel

Edição 1 - Editorial

Um jornal para Barão Geraldo

O Número Um


Dizem que é vã a vida do jornal impresso. Vã e fugaz: não dura um dia. O papel onde se imprimem notícias, artigos, fotografias e textos com arte ou sem arte alguma, no dia seguinte é papel de embrulho.

E, desde que o mundo é mundo, ou melhor, o jornal é jornal, dizem também que ‘papel aceita tudo’, ou seja, aceita coisas sérias e também as mais absurdas. Vida Vã, nosso novo jornal de Barão Geraldo, aceita todas estas verdades da sabedoria popular. Mas, se é para ser papel de embrulho, imprima-se num bom papel! Fizemos isso e tentaremos buscar cada vez melhores papéis e melhores ideias. Se as ideias duram um dia, que pelo menos sejam fortes e justas. E que o papel seja bom.

Há também uma conversa sobre o jornal impresso, que, supreenda-se!, já tem mais de 20 anos. Sucessivos arautos proclamaram o fi m desta mídia. Alguns chegaram a marcar a data: cinco anos, dez anos. Mas foi em vão. O último relatório do IVC (Instituto Verificador de Circulação), órgão que contabiliza os exemplares de jornais lidos no Brasil, demonstra que a circulação de jornais no país continua aumentando este ano, como ocorre ao longo dos últimos 25 anos. No primeiro semestre de 2011, a circulação de jornais impressos no Brasil atingiu nível recorde. O fenômeno é particularmente forte em nosso país, mas também acontece em outras regiões do mundo, contrariando o clima de velório que reina em setores da mídia impressa dos Estados Unidos.

Segundo a Associação Mundial de Jornais (WAN, na sigla em inglês), nunca se leu tanto jornal como agora. O crescimento tem sido contínuo nos últimos anos. A associação relaciona dez mitos que contradizem o fim do jornal impresso. Um deles é lindo e pegou pesado na equipe de Vida Vã: “O papel está morrendo. O futuro é digital e totalmente segmentado. Um jornal para cada leitor”. A contestação: ”A função do jornal é precisamente fazer o oposto: criar raízes na comunidade, unir, ser uma ferramenta para construir uma coletividade. O jornal é mais confortável que os outros meios”.

Vida Vã, o jornal de Barão Geraldo, gostou desta ideia.

Ah, e andam dizendo por aí que os jovens querem coisas muito leves, textinhos curtinhos, pois não estão ligados na leitura. Pouco texto, muita foto. Caramba, e como ficaria Harry Potter nessa “verdade”, com seus livros com centenas de páginas e nenhuma ilustração?

E dizem também que deveríamos fazer jornais bem tradicionais, porque os leitores são muito conservadores não gostam de mudanças. Será que os jornalistas conhecem realmente os leitores? Vida Vã, ou pelo menos seus editores, acham que os jornalistas é que são muito conservadores. Por isso, estaremos abertos à novas ideias.

E queremos fazer um jornal para a comunidade de Barão Geraldo. Que vire amanhã papel de embrulho (como nos canta e encanta Zeca Baleiro - e que acabou sendo a inspiração para a escolha do nome), pelo menos com um bom papel.

Abraço a todos, com imenso carinho de Vida Vã.

Edição 1 - Crônica

As aves de Barão Geraldo


Carlos Eduardo Dias Camargo

É madrugada e os galos cantam. Quando a manhã se aproxima os sabiás vocalizam seus trinados matinais e logo as corruíras anunciam a manhã. Tico-ticos, sanhaços e outras aves, como os periquitos maracanãs com seus alaridos em bandos barulhentos. Até casais de papagaios costumam aparecer.

Outro dia, um tucano-toco apareceu comendo coquinhos de palmito juçara. É o maior da família dos tucanos. No Jardim Eulina, vi um filhote. Isto é muito promissor, pois são aves ameaçadas de extinção.

Aqui no Guará vocalizam joão-de-barro, choca, e há arrulhos de pomba branca. E também o onomatopaico fogo-apagou e os gritos do bem-te-vi e sabiá-poca. Ah, e o belo gaturamo

(amarelo com as asas azuis escuras) que fica brigado com o que considera seu rival, no reflexo do espelho dos carros. A saracura-três-potes canta seu nome na beira do ribeirão.

Também temos as dezenas de garças e biguás no Parque Ecológico Professor Hermógenes. E por falar em aves migratórias não podemos esquecer o símbolo da cidade, as andorinhas, que também fazem suas rasantes por aqui, quando chega o tempo. Os beija-flores dão um show à parte, como o tesourão de cauda bifurcada e do rabo-branco, que o folclore diz que anuncia visita, quando entra dentro de casa.

No céu voam urubus e algum gavião carcará. Nas áreas arborizadas, o matraquear do pica-pau anão e as batidas fortes do pica-pau grande de penacho vermelho. À tarde, ao anoitecer, as sabiás voltam a cantar. À noite, em certas épocas, ouve-se o grito lúgubre do urutau, ou mãe-da-lua e algum pio de corujinha. Os galos cantam e assim fecha-se o ciclo de mais um dia.

O distrito de Barão Geraldo tem aproximadamente 170 a 180 espécies de aves, contando as migratórias. É privilegiado pela Mata de Santa Genebra e bosques. Na área urbanizada há um bom número, em torno de 80 espécies. Um fator relevante é a arborização. Neste aspecto uma árvore indicada é pitangueira. Não é atacada por cupim, não cresce muito e carrega de frutinhas, apreciadas tanto pelas aves quanto pelos humanos.
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Carlos Camargo, morador do Guará, é escritor e ornitólogo.

Edição 1 - O jeito de ser Vila São João

Um pedaço de Barão que circula pelo YouTube

Morar na Vila São João é uma opção, um estilo de vida. Localizado entre a estrada da Rhodia e a avenida Santa Isabel, na região central de Barão Geraldo, o bairro se diferencia não só pelo fato de não ter asfalto, já que tantos outros também não têm, mas pela comunidade que ali vive e reforça as características iniciais do local.

Os moradores vivem em harmonia com as ruas de terra (e com todas as consequências que isso traz, como buracos, poeira e lama), com as enormes árvores e diversos animais que eventualmente aparecem por ali.

Porém, mais do que o contato com a natureza, o que chama a atenção é a mobilização das pessoas para a preservação do local, a união para ocupação e manutenção dos espaços públicos e a intensa convivência que existe entres eles.

O começo – Tudo na Vila começou com Maria Luiza Pedreira Passos Guedes – ou melhor, a Dona Lu, como era conhecida – e que logo na entrada da Vila deixou sua “marca”, decorando a praça com vitrais e bancos cuidadosamente instalados à sombra das copas das árvores. Um constante convite para o descanso e contemplação da natureza.

Outra característica está em várias casas, construídas com material de demolição, uma de suas paixões. Para entender um pouco da história da Vila São João e essa personalidade que foi a Dona Lu, o documentário “Vila São João: um retrato de DonaLu”, de Leandro Souza, é uma boa pedida. Disponível no Youtube, o documentário está dividido em duas partes - http://www.youtube.com/watch?v=lZZsFQ9ngOc e a segunda parte no link http://www.youtube.com/watch?v=qAu3edpMisA – e desde a postagem, em julho do ano passado, teve, até o fechamento desta edição, 778 visualizações.


Lugar mágico – “Vivo há onze anos na Vila. Um lugar mágico”, comenta Charles Leitão. "Vizinhos se conhecem, conversam e, geralmente, são amigos. Um barato. Professores, músicos, estudantes. Tudo se mistura”.

Adriana Arantes Ferreira reside no bairro desde 2004, e ela diz que tem uma relação de amor com a Vila. “No Verão enfrentamos o barro, umidade e, no Inverno, a seca nos trás o pó em demasia. Fora os animaizinhos estranhos que nos fazem uma visita vez ou outra. Mas a paisagem, o perfume, os sons dos pássaros, as pessoas transitando pela rua sempre com alto astral e disposição são inesquecíveis. Adoramos a ocupação dos espaços públicos que temos, com as duas praças”.

Documentário – Tamanho é o fascínio que a Vila desperta, em moradores ou não, que o bairro também foi o tema de um mini documentário produzido por uma turma do curso de Jornalismo da PUC Campinas (http://www.youtube.com/watch?v=bFY7ZCKT8q8&feature=youtu.be).

Nesse trabalho, moradores falam sobre o bairro, apresentam justificativas para se posicionarem contra o asfalto e o vídeo termina com o depoimento de uma das moradoras, Chris Cardoso, que, após citar coisas do cotidiano da Vila, conclui: “Gente, porque é que vou sair daqui?”

Edição 1 - Aldeia Brasil

Perigo na floresta
Padre italiano relata para Vida Vã as denúncias de utilização em larga escala do 'agente laranja’ na região amazônica que será alagada pela usina de Belo Monte


O ‘agente laranja’, um dos mais violentos agentes contaminantes da natureza fabricados pela indústria química, proibido de ser utilizado no mundo há mais de 30 anos, está sendo utilizado em larga escala no desmatamento da Amazônia, inclusive em extensa área da “Terra do Meio”, no Pará, região que será alagada pela Usina de Belo Monte.

A contaminação por dioxinas deixadas na natureza pelo ‘agente la­ranja’ são irreversíveis. O produto foi utilizado pelos Estados Unidos no Vietnã, na década de 1960, e as dio­xinas permanecem até hoje no meio ambiente, em pessoas e animais. O câncer provocado por dioxinas atinge o DNA e é transmitido geneticamente.

A denúncia da utilização do ‘agente laranja’ na Terra do Meio foi formalizada, em julho passado, em fóruns nacionais e internacionais pela Corte Internacional do Meio-Ambiente, órgão ligado à Igreja Católica de Roma, na Itália, e com assento na ONU (Organização das Nações Unidas). As provas de sua utilização na floresta foram coletadas por um delegado internacional da Fundação, o padre Angelo Pansa, de origem ita­liana e com mais de 30 anos de trabalho junto à população indígena e moradores das regiões ribeirinhas do Pará.

A denúncia está formalizada também no Ministério Público Federal e já é investigada pelo Ministério Público Estadual do Ceará, onde uma fábrica de agrotóxicos teria produzido ilegalmente o ‘agente laranja’ para vender a grandes proprietários de terra da Amazônia. Coletas de material feitas na floresta pelo padre estão nas mãos de pesquisadores brasileiros, entre eles residentes em Barão Geraldo, e também italianos e alemães.

Primeiros indícios – Os primeiros indícios da utilização do ‘agente laranja’ na região foram coletados pelo padre Angelo em 2007. “Antes, ouvíamos falar de alguma substância utilizada como desfolhante por grandes fazendeiros em desmatamentos, e que provocava grandes estragos onde era lançada”, contou padre Angelo para Vida Vã.

Em julho de 2007, depois de receber denúncias de moradores, padre Angelo decidiu ir a um campo de pouso locali­zado às margens da Transiriri, uma estrada clandestina que liga o Rio Xingu ao Rio Iriri, no município de São Felix do Xingu, no Pará. Um avião, sem prefixo, pulverizava a mata há dias com um produto que desfolhava árvores e causava devastação enorme na região. Relatos semelhantes já haviam sido encaminhados a ele, em ocasiões ante­riores e diferentes locais, por integrantes da prelazia de Tucumã, onde ele atuava como padre responsável.

“Fomos expulsos a tiros do local quando chegamos. Quando as pulve­rizações acabaram, voltamos lá, mas não conseguimos recolher nenhum material. Tudo havia sido queimado”, relata.

Na véspera do Natal daquele mesmo ano, agricultores o procuraram para denunciar que os mesmos produtos estavam sendo utilizados em outro local, dentro da mata. “Fomos de noite. Deixamos a caminhonete escondida e caminhamos mais de três horas pela mata, para não sermos vistos. No local, havia um grande número de embalagens, que descobriríamos depois ser do agrotóxico Nufarn 2,4-D. Mas havia vários sacos plásticos, sem identificação, que continham restos de um produto amarelo. A maioria dos sacos havia sido queimada, mas conseguimos pegar alguns deles. O produto amarelo, segundo os moradores, era misturado nos grandes frascos de Nufarn 2,4-D, antes da pulverização”.

Hospitalizado – O ‘agente laranja’, com a fórmula química 2,4,5-TDD, pode ser feito a partir de uma composição entre o 2,4-D e outro produto, o 2,5-T. “A suspeita era de que o as embala­gens amarelas conti­nham o 2,5-T”, diz.

Com os produtos na mão, ele foi direto para Belém, capital do Estado, mas chegou lá gravemente enfermo. “Embora eu tivesse usado luvas, aquelas longas horas de viagem com o produto no carro me contaminaram gravemente”.

Ele ficou hospitalizado, em coma, durante dias. Quando saiu, ainda enfermo, encaminhou o material ao procurador da República no Estado do Pará, Ubiratan Cazetta. O material foi encaminhado ao Instituto Evandro Chagas, que alegou não possuir habilitação técnica para fazer a análise e o remeteu ao Laboratório Analytical Solutions, com sede no Rio de Janeiro.

“O exame pericial não esclareceu se o material continha o 2,5-T. Eram necessários outros exames mais elabo­rados. Mas, por causa da contaminação, fiquei muito doente e tive que voltar para a Itália para me tratar”.

Denúncias graves – No final de 2010, padre Angelo voltou ao Brasil e descobriu que o processo havia sido, desde então, engavetado. Mas novas denúncias feitas por moradores da região eram ainda mais graves. O Nufarn 2,4-D, com o tal pó amarelo, continuava sendo utilizado em larga escala e agora já sem controle nenhum.

Em diligências, ele constatou que embalagens abandonadas eram am­plamente utilizadas pelas populações ribeirinhas para armazenar água. Por lei, as embalagens devem ser devolvidas ao fabricante, que tem a obrigação de fazer o descarte adequado.

O padre descobriu ainda que no ano anterior, 2009, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) havia apreendido uma carga clandestina de 2,3 milhões de litros do agrotóxico Nufarn 2,4-D adulterado por uma substância desconhecida. A operação, realizada com apoio da Polícia Federal, ocorrera na fábrica da Nufarm Indústria Química e Farmacêutica, em Maracana, no Ceará, e era destinada a fazendeiros da Amazônia. “Até hoje não se sabe qual o produto colocado nesta carga e qual a adulteração provocada nela”, conta.

Escândalo – Com o escândalo das dioxinas na Alemanha, no começo de 2011, quando a contaminação de milhões de ovos provocou grande prejuízo a agricultores, as denúncias de padre Angelo ganharam impulso adicional e foram parar nas páginas da poderosa revista alemã Der Spiegel.

Em julho passado, com base em todo o material levantado desde 2007, padre Angelo, na condição de delegado da Corte Internacional do Meio Ambiente, impetrou em várias instâncias nacionais e internacionais um pedido formal de análise de terrenos, águas, produtos vegetais e animais provindos da área contaminada e também do sangue e urina de pessoas eventualmente atingidas pelos venenos, para detectar a presença de dioxinas.

A solicitação está protocolada junto aos governos do Brasil e da Itália. “Pedimos que as amostras sejam colhidas e encaminhadas a laboratórios internacionais, como Mari Negri, na Itália, que atuou quando ocorreu o desastre das dioxinas em Seveso e Milão”.

Padre Angelo tem certeza de que as análises comprovarão as denúncias. “É fundamental que tudo isso chegue ao conhecimento público, pois os interesses envolvidos são muito grandes e temo o abafamento do caso”.


Edição 1 - Opinião

Polêmica ou ignorância?
Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa

Marcos Bagno
Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os li­vros didáticos de português avaliados pe­lo MEC começavam a abordar os fe­nô­menos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.

“Classes populares”
Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A perspectiva
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Ninguém falou
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fe­chados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua.
O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra grama­tical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas.
O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la também.

Purismo
O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?
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Marcos Bagno é linguista, tradutor, professor Universidade de Brasília
(http://marcosbagno.com.br)

Edição 1 - Buscador

E assim falava Baranasukas
Organização Mundial da Saúde alerta, pela primeira vez, sobre os graves riscos para a saúde que podem ser causados pelo uso do telefone celular


 Paulo San Martin

O professor Victor Baranauskas, da Faculdade de Engenharia Elétrica, Computação, Semicondutores e Fotônica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) garante: as grandes empresas de telefonia já desenvolveram tecnologias para reduzir o impacto das ondas emitidas pelos celulares no cérebro humano, mas só vão colocá-las em prática se forem pressionadas pelos consumidores.

Por isso, ele defende uma forte mobilização dos órgãos públicos de saúde e, principalmente, dos consumidores, para exigir que estas tecnologias sejam disponibilizadas nos telefones celulares.

“Como não há pressão ou demanda por esta tecnologia, porque os consumidores desconhecem os riscos, as empresas não investem nisso. Com certeza, os consumidores seriam mais exigentes com os fabricantes se tivessem consciência da gravidade do uso do aparelho”, sentencia.

Neste sentido, o professor chama à responsabilidade não só os órgãos de saúde, mas autoridades e veículos de comunicação, por nunca terem aprofundado e questionado o alcance dos riscos dos celulares para a saúde humana.

Durante décadas, praticamente desde o início da expansão da telefonia celular no Brasil, nos anos 80, o professor Baranauskas moveu uma verdadeira cruzada para alertar a po­pulação sobre este perigo, inclusive com a publicação, em 2001, do livro ‘O Celular e seus Riscos’. Na maior parte das vezes, ele clamou no deserto.

O alerta da OMS - Agora, com o recente alerta da OMS (Organização Mundial da Saúde), o professor acredita que é hora de voltar à carga. Para ele, os órgãos de saúde pública, no Brasil e no mundo, não podem mais se abster diante da colossal expansão da telefonia móvel. Em maio deste ano, a OMS, pela primeira vez – depois de ter recebido durante anos pressões de pesquisadores do mundo inteiro – colocou os telefones celulares como “possivelmente cancerígenos”, na mesma categoria do chumbo, escapamento de motor de carro e clorofórmio.

Em comunicados anteriores, a pró­pria OMS havia afirmado que a radiação de celulares “não poderia ser relacionada a nenhum efeito nocivo à saúde”. O novo informe foi publicado com base em uma ampla revisão, feita por 31 cientistas de 14 países, dos estudos realizados no mundo sobre a segurança de telefones celulares.

A equipe diz ter encontrado provas suficientes para classificar a exposição pessoal à radiação de celulares como “possivelmente cancerígena” para os seres humanos.

Como acontece – Para Baranauskas, nada disso é novidade. Desde o início, quando era óbvia a falta de dados estatísticos, ele partiu de outras evidências científicas para alertar sobre o risco da radiação dos celulares.

“O corpo humano é um mecanismo biológico extremamente complexo e, do ponto de vista elétrico, apresenta estruturas de alta condutividade como as redes de neurônios, os fluidos sanguíneos e o líquor cerebral. Por andarmos na posição vertical, funcionamos também como ótimas antenas receptoras para absorção da radiação eletromagnética”, diz ele. “A telefonia celular emite radiação com comprimentos de onda entre 33,7 cm e 36,3 cm. Estes valores coincidem com a ressonância, isto é, a maior absorção de radiação na caixa craniana de pessoas adultas, ou na radiação de corpo inteiro em bebês”.

Por isso, é no cérebro dos adultos e em todo o corpo das crianças que os efeitos dos celulares são mais devastadores.

As microondas emitidas pelo ce­­­lular, ao serem absorvidas pelo organismo humano, geram aquecimento. “Muitas vezes, um indivíduo exposto à radiação poderá sofrer até queimaduras internas, sem que nenhuma transformação visível possa ser vista na pele”, diz. É como o frango cozido no forno de microondas. Ele fica completamente cozido por dentro, enquanto sua pele continua crua. Isso acontece porque a pele tem pouca água e, portanto, uma capacidade menor de absorção da energia. O mesmo acontece no corpo humano.

Esta capacidade de absorção e dispersão da energia também pode mudar de indivíduo para indivíduo, dependendo das dimensões do crânio e das condições fisiológicas de cada um. “Microscopicamente, sabe-se lá quais e quantas estruturas biológicas são danificadas ou não durante este processo”, adverte.

Risco de câncer – O professor lembra que a medicina já tem claro que os fatores principais que podem desencadear o câncer são as altera­ções do DNA e a deficiência do sis­tema imunológico. “E, infelizmente, tanto um quanto o outro podem ser alterados pela radiação eletromagnética”, diz.

O uso de uma antena de um telefone celular próximo à cabeça, certamente trará maiores consequências da radiação sobre as regiões do cérebro e aos nervos da mão que segura o aparelho. “Por este motivo, o risco de câncer cerebral deve ser maior em usuários de telefone celular. A dificuldade de comprovação direta entre a radiação de microondas do celular e o câncer cerebral é a óbvia impossibilidade ética de se utilizar cobaias humanas. Mas, na prática, os usuários atuais infelizmente têm sido cobaias desta tecnologia”, denuncia.

No cérebro humano estão locali­zadas ainda as glândulas hipófise e a pineal, responsáveis pela secreção de dezenas de hormônios. Estes hormônios influenciam diretamente as funções celulares, assim como diversas funções fisiológicas e até psicológicas do ser humano.

“Portanto, através da disfunção dos mecanismos hormonais, a incidência de radiação no cérebro pode levar a diferentes mecanismos de ativação celular que podem originar células ‘diferentes’ (cancerígenas) em outras partes do corpo, além do próprio cérebro”.

Antenas – O efeito da radiação emitida pelas torres de microondas já estão largamente comprovados, afirma o professor.

Estudos mostram que as crianças que moram próximas de antenas com a radiação de frequência de 900MHz, têm prejudicadas as fases do sono responsáveis pela memória e aprendizado.

Ele diz que existem diversos estudos que comprovam o aumento de casos de leucemia em famílias que vivem em residências próximas às antenas.

“Finalmente, estudos epidemioló­gicos feitos em grupos de pessoas que são expostas à radiações eletromagnéticas devido a seu trabalho profissional, como operadores de radar de rádio, entre outros, demonstraram que há evidência epidemiológica de alte­ração das células brancas e vermelhas do sangue, incremento da leucemia, aumento das malignidades no sistema linfático, aumento da neoplasia do trato alimentar e aumento da incidência de câncer cerebral”.

Comportamento – De acordo com relatos científicos, fartamente cata­lo­gados por Baranauskas, os efeitos térmicos provocados pela radiação também contribuem para a alteração psicológica do indivíduo e provocam mudanças de comportamento e fadiga.

“Não há nenhuma dúvida na literatura científica de que a hiper­temia provocada pelas radiações eletromagnéticas é potencialmente prejudicial à saúde humana. Quando encostamos em um objeto quente nossa ação espontânea é nos afastarmos. Infelizmente não temos nenhum receptor no organismo para detectar a radiação eletromagnética”.

Para Baranauskas, além das doenças já conhecidas provocadas pela hi­pertemia, a radiação eletromagnética também provoca outras patologias. Um dos casos, já bastante estudado, é o da aceleração da catarata. “No caso da córnea e do cristalino, existem dois fatores que potencializam os danos da radiação: a necessidade de hidratação e a baixa irrigação sanguínea, além da extrema dificuldade de regeneração destes tecidos quando desidratados”, diz.

Com a eliminação da água, as fibras de colágeno que reveste os olhos enrolam-se entre si e passam ficam opacas, dando origem à catarata. A transparência delas é irrecuperável e elas precisam ser removidas por cirurgia. “A catarata pode ocorrer também devido a problemas vasculares, deficiência imunológica e envelhecimento. Pessoas que já tenham estas deficiências vão ter também os efeitos da radiação de microondas ampliados”, alerta.

Por isso, assim como ele já falava há muitos anos, Baranauskas diz que há motivos de sobra para que a saúde pública passe a colocar a telefonia celular como uma de suas prioridades.

(Colaborou Joice Costa)

Advertência vã
A expectativa de que o alerta lançado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), em maio, se transformaria em um divisor de águas para as normas de segurança dos celulares não se confirmou. Pelo menos até agora.

Em nenhum nível consultado por Vida Vã há indícios de que a decisão tenha provocado qualquer efeito prático.  Nem Ministério ou secreta­rias Estadual e municipais de saúde têm qualquer projeto de chamada às falas dos fabricantes e distribuidores de celulares.

Revendedores sequer são aconselhados a orientarem os consumidores sobre riscos e maneiras de o evitarem – ou minimizarem. E poucos consumidores, na ponta final, foram informados sobre os riscos.

Nas ruas, as pessoas demonstram não ter quase informação nenhuma sobre o assunto. Para o inspetor de qualidade Ivan do Santos, sua única preocupação é a tecnologia do apare­lho. “Eu não penso na radiação”, diz. Santos usa aparelho móvel há 7 anos.

A empresária Adriana Marquissolo diz que também prefere aparelho de boa tecnologia. “Eu não me preocupo com problemas de saúde quando vou escolher um telefone”. Ela faz uso da telefonia móvel também há 7 anos.

A estudante Laís Helena Pires Costa fala que usa celular há quase 4 anos e só pensa no que o aparelho pode oferecer de melhor. “Eu nem sabia de riscos a saúde”.

Precauções – “Esse tipo de informação deveria constar no manual do telefone, assim como fazem hoje com os maços de cigarros”, diz Baranauskas. Para ele, há precauções que podem ser tomadas por qualquer consumidor. “O ideal é evitar o contato físico com o aparelho. Recomendo que seja mais utilizado o viva voz e o fone de ouvido”, diz.

Em hipótese nenhuma os celulares devem ser utilizados por crianças, de preferência nem para jogar. Celular sob o travesseiro, então, nem pensar.

Outra dica de Baranauskas é regular o volume de forma que se possa usar o aparelho longe da cabeça. Espere a ligação ser completada para colocar o celular na orelha - o celular aumenta em até cinco vezes sua potência para localizar a antena mais próxima - e evite usar o celular em lugares fechados, como elevadores e carros.

Estudo realizado na Suécia mostrou que ratos expostos à radiação celular (em níveis considerados baixos pelas indústrias), diariamente por duas horas, durante 50 dias, apresentaram pontos escuros no cérebro, microhemorragias e perda de massa encefálica. O cérebro ficou poroso.